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Mães cobram justiça na Vila Cruzeiro um ano após a Operação Contenção, com 122 mortos

O MPRJ ouviu mais de 360 pessoas, mas ainda não há conclusão pública sobre quem responde pelas mortes de 117 civis nos complexos da Penha e do Alemão.

Redação Bairrista · Repórter de Polícia · · 3 min de leitura

Familiares e amigos acompanham cortejo fúnebre em cemitério. Imagem de arquivo da Agência Brasil.
Foto: Divulgação/Agência Brasil

Mães e familiares de vítimas da Operação Contenção fizeram um ato em memória dos mortos na Vila Cruzeiro, na Penha, nesta quarta-feira (28), um ano depois da ação. A operação reuniu mais de 2,5 mil policiais civis e militares nos complexos do Alemão e da Penha, deixou 122 mortos e é considerada a mais letal da história do estado.

Passado um ano, ainda não há conclusão sobre as circunstâncias das mortes nem sobre os responsáveis, apesar das investigações das polícias Civil e Federal e do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ). Os familiares dizem que não receberam os laudos periciais nem tiveram acesso aos depoimentos prestados na apuração.

"Não existe uma lei para quem mora na favela"

A confeiteira Tauã Brito, mãe de Wellington Brito, de 20 anos, falou em nome das famílias. Ela afirmou que "não existe uma lei para quem mora em um condomínio da Barra da Tijuca" e outra para quem vive na favela.

Tauã foi uma das primeiras a denunciar execuções na operação e a defender que suspeitos pudessem se entregar à Justiça. Segundo o relato dela, a polícia não a deixou entrar na mata onde o filho foi morto. Ela voltou de madrugada e encontrou o corpo.

O que as investigações já apuraram

O promotor de Justiça Fabio Correa coordena o Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp) do MPRJ. Ele preside o Procedimento Investigatório Criminal (PIC) aberto para apurar as mortes. O MPRJ colheu depoimentos de 255 policiais civis e militares e de 61 pessoas presas na ação, e ouviu 45 familiares. O órgão também analisa cerca de 4 mil horas de gravações de câmeras corporais e imagens de drones.

Dois casos foram considerados "atípicos" pelos peritos do MPRJ: uma morte por disparos de curta distância e uma decapitação. Segundo Correa, os dois casos não são conclusivos e seguem em apuração. O promotor afirmou que não foi possível fazer perícia no local, o que dificulta o entendimento dos fatos.

Na Polícia Civil, a Delegacia de Homicídios da Capital investiga as 117 mortes de civis, segundo a Secretaria de Estado de Segurança Pública. A pasta informou 242 depoimentos e a análise de 553 laudos periciais. A apuração das mortes dos cinco policiais foi concluída, com 12 indiciados: nove por envolvimento direto nos homicídios e três por suspeita de ordenar ataques às forças policiais.

Execução, câmeras e denúncias

Segundo a polícia, os 117 mortos que não eram policiais morreram em troca de tiros. Moradores e parentes relataram tortura e execução. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos citou corpos com disparos na cabeça, nas costas e no tórax, em posições que não seriam compatíveis com troca de tiros.

Um levantamento do MPRJ sobre 51 câmeras do Batalhão de Operações Especiais (Bope) apontou que pelo menos 17% foram desligadas de propósito. Em 7,8%, há indício de que a lente foi coberta. Dos 685 agentes da Polícia Civil na operação, 62 usaram câmeras corporais.

A ONG Human Rights Watch divulgou na quarta (28) um relatório com base em 4.400 horas de gravações, 9 mil páginas de documentos oficiais e 122 laudos de autópsia. A organização aponta indícios de alteração ou obstrução de câmeras, uso excessivo da força e possíveis mortes intencionais. São conclusões da ONG e não substituem o resultado das investigações oficiais.

O MPRJ apresentou 12 denúncias contra 28 policiais militares por suspeitas de crimes ligados à operação. Essas denúncias tratam de ilegalidades como invasões de domicílio e furtos, não de responsabilidade pelas mortes.

Defensoria pede segunda avaliação

A Defensoria Pública do Estado do Rio atende 30 famílias de mortos. O órgão teve acesso aos laudos cadavéricos enviados pelo MPRJ e pediu uma segunda avaliação ao projeto Mirante, da Universidade Federal Fluminense (UFF), que faz análises forenses independentes. A Defensoria ainda não terminou de apresentar os documentos às famílias.

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