Médicos do RS veem pacientes pedirem remédio da internet e levarem diagnóstico de IA
Dirigentes do Cremers, do Simers e do Hospital Moinhos de Vento dizem que o excesso de informação nas redes gera angústia e pode levar a decisões de risco.
Redação Bairrista · 17 de outubro de 2026 às 09:21 · 2 min de leitura

Médicos do Rio Grande do Sul relatam que o consultório virou lugar de conferir o que o paciente leu na internet ou ouviu de uma ferramenta de inteligência artificial (IA). Em entrevistas, representantes do Conselho Regional de Medicina (Cremers), do Sindicato Médico (Simers), dos hospitais Moinhos de Vento e Universitário de Canoas e da clínica Doctor Clin descreveram pessoas que chegam com diagnóstico pronto e pedem receitas de remédios que encontraram on-line.
Para quem busca informação de saúde, o recado dos médicos é de cautela. Consultar a internet e a IA não é o problema, dizem eles. O risco está em decidir por conta própria com base no que se leu, sem considerar histórico, peso, altura e alergias, que raramente entram no comando digitado na ferramenta.
Excesso de conteúdo nas redes deixa pacientes ansiosos, diz Cremers
O vice-presidente do Cremers, Eduardo Neubarth Trindade, afirmou que o volume de conteúdo sobre saúde nas redes está gerando uma população angustiada e ansiosa. Ele também apontou falta de leitura crítica: muita gente não distingue o que se baseia em evidência do que é relato da experiência de uma pessoa.
Segundo Trindade, o efeito chega à consulta. "Os pacientes chegam com diagnóstico e muitas vezes desafiam o médico", disse. Ele afirmou que o profissional corre o risco de virar um mero chancelador do que a IA concluiu. Para ele, o resultado depende de como a pessoa formula a pergunta, e um erro pode levar a sequelas ou até à morte.
O presidente do Simers, Marcelo Matias, afirmou que tratamento é sempre individualizado e que promessa de solução fácil tende a ser falsa. Ele também alertou que a IA pode dar respostas genéricas, baseadas nos padrões mais comuns, e já criou informações que não existem.
Pedido de receita e conversa com o paciente
O diretor-técnico do Hospital Universitário de Canoas, Fernando Farias, disse que há pacientes que pedem ao médico um medicamento que leram na internet. Segundo ele, o caso não é isolado: são dezenas de pessoas. Farias afirmou que nenhum profissional correto receita assim.
No Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, o superintendente-médico Luiz Antonio Nasi disse que conversa com os pacientes sobre o que eles trazem da internet. Quando perguntam se determinada combinação de produtos funciona, ele responde que não sabe e propõe procurar a resposta junto. Às vezes abre o computador e consulta o chat na frente do paciente.
A diretora-médica da Doctor Clin, Michele Schneider, fez uma autocrítica. Segundo ela, as redes preenchem uma lacuna que os próprios médicos deixam, por falta de tempo ou de uma comunicação clara. Schneider disse que os conteúdos curtos, feitos por quem tem engajamento, oferecem um caminho de esperança que nem sempre o médico consegue dar.
Por isso, ela recomenda que os médicos evitem o confronto: acolher a angústia, ouvir o que o paciente trouxe e explicar a conduta e seus fundamentos.
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