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Estudo recua em até 200 milhões de anos a origem dos animais, para 800 a 700 milhões

Análise de mais de 100 amostras de fósseis microscópicos da Mongólia derruba o argumento de que animais teriam deixado rastro na biota de Weng'an, na China.

Redação Bairrista · 18 de outubro de 2026 às 04:33 · 3 min de leitura

Ilustração: representação gerada por IA ilustrando a origem dos primeiros animais na pré-história da Terra.
Ilustração: Bairrista/IA

O reino animal pode ter surgido entre 800 milhões e 700 milhões de anos atrás, até 200 milhões de anos antes do que se estimava. A conclusão é de uma equipe científica que analisou organismos microscópicos de depósitos antigos da Mongólia, em estudo publicado na revista Science Advances.

A estimativa leva o início da história animal para o período Neoproterozoico, antes das glaciações mais severas que o planeta já enfrentou. Até aqui, os animais apareciam de forma relativamente repentina no registro fóssil pouco antes do período Cambriano, entre 539 milhões e 487 milhões de anos atrás.

Por que Weng'an deixou de ser o limite

A biota de Weng'an, na China, é um sítio com cerca de 590 milhões de anos, do período Ediacarano. Há décadas é referência nos estudos sobre a origem da vida multicelular complexa. Preserva organismos microscópicos com grande detalhe, mas nenhum deles é considerado animal.

Por isso, a comunidade científica supunha que os primeiros animais tinham surgido depois de Weng'an. Se já existissem, um depósito tão bem conservado teria registrado seus fósseis.

O novo trabalho analisou mais de uma centena de amostras da biota de Kheseen, na Mongólia, cerca de 40 milhões de anos mais jovem que Weng'an. Lá também não há fósseis de animais, embora registros no sul da China e na Namíbia confirmem que eles já existiam na época.

"A biota de Kheseen refuta o argumento de que os excepcionais microfósseis de Weng'an implicam que teríamos encontrado fósseis de animais naquele depósito caso eles existissem na época", afirmou o autor Ross Anderson. Segundo ele, os microfósseis de Kheseen estão igualmente bem preservados, e ainda assim os animais não aparecem.

A ausência, explica o estudo, não prova que eles não existiam. Podiam viver em ambientes cujas condições químicas impediam a fossilização.

Relógio molecular puxa a data para trás

Sem Weng'an como limite máximo, os cientistas recorreram a depósitos de 850 milhões a 730 milhões de anos, na Noruega, na Austrália e no Arizona, nos Estados Unidos. Também não há fósseis de animais nesses locais, mas a composição química das rochas indica que elas seriam capazes de preservá-los.

Com essas referências, a equipe aplicou o relógio molecular. A técnica compara diferenças genéticas entre espécies atuais e as combina com a idade dos fósseis para estimar quando viveram seus ancestrais comuns. O resultado foi o recuo de cerca de 200 milhões de anos na origem do reino animal, muito antes dos primeiros fósseis corporais confirmados.

A hipótese coincide com biomarcadores químicos em rochas antigas, interpretados como possíveis evidências de esponjas primitivas que viveram há pelo menos 650 milhões de anos. Eram organismos minúsculos, de corpo mole e com baixíssima chance de fossilização, ao contrário da fauna posterior, com conchas, ossos e outras estruturas resistentes.

Início teria coincidido com a "Terra Bola de Neve"

Se a data estiver certa, os primeiros estágios da evolução animal ocorreram durante as glaciações globais do período Criogeniano, iniciadas há cerca de 720 milhões de anos. Nessa fase, grande parte do planeta estava coberta por gelo, fenômeno chamado de "Terra Bola de Neve".

O coautor Derek Briggs, professor da Universidade Yale, disse que os resultados ajudam a entender os ritmos da evolução e os processos que levam à diversificação dos animais.

Os autores afirmam que o estudo não demonstra de forma definitiva a existência de animais há 800 milhões de anos. O trabalho mostra apenas que a ausência de fósseis num sítio específico não basta para descartar essa possibilidade, o que abre espaço para que análises moleculares revelem uma história evolutiva bem mais antiga. "A data exata de surgimento do reino animal continua incerta", disse Anderson.

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