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Singer atribui virada de Lula a campanha popular, atos de rua e política digital

Cientista político da USP diz que o desafio do novo mandato é isolar a extrema direita, que ele estima em cerca de 15% do eleitorado.

Redação Bairrista · Repórter de Política · · 3 min de leitura

Ilustração do Bairrista sobre: Symbolic, non-literal editorial illustration (no reenactment of the event, no people): A simple white electronic voting terminal on a black
Ilustração: Bairrista

O cientista político André Singer, professor titular do Departamento de Ciência Política da USP, atribui a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a três fatores: a mudança de foco da campanha, as grandes mobilizações de esquerda e a política digital. Em entrevista divulgada nesta segunda (26), ele analisa o segundo turno de domingo (25), em que Lula somou 64.256.232 votos (51,79% dos válidos), contra 59.826.041 (48,21%) do senador Flávio Bolsonaro (PL), segundo o TSE.

Singer avalia que as medidas do governo, como o reajuste do Bolsa Família, a PEC do transporte gratuito aos fins de semana e a jornada de 40 horas semanais, pesarão no gasto público a partir de 2027. Para ele, o risco fiscal é sobrevalorizado: o dinheiro extra no bolso da população faria a economia girar e ampliaria a arrecadação.

A margem de 2026 é maior que a de 2022, lembra o professor. A vantagem de Lula ficou em 3,58 pontos percentuais; no primeiro turno, ele havia perdido por 1,87 ponto. Singer cita a diferença de 1,8 ponto em 2022 e diz que ela "dobrou". Na comparação com o primeiro turno, Lula ganhou 10.376.694 votos, e Flávio, 3.721.538.

Preço no mercado, rua e internet

O primeiro fator, segundo Singer, foi uma virada pouco notada ainda na primeira quinzena de setembro. Lula passou a admitir que havia produtos caros nos mercados e a sinalizar que proibiria as bets, o que aproximou a campanha dos problemas das camadas populares.

O segundo foi a mobilização de rua. Singer afirma que os dois atos na avenida Paulista foram os maiores da esquerda em São Paulo e possivelmente no país. Ele compara a dimensão ao ato da direita na véspera do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016. O professor reconhece que não há medição equivalente, porque o Datafolha não fez a mesma contagem, e que sua comparação é "impressionista". Também diz não poder provar que esse tenha sido o fator decisivo.

O terceiro é a estrutura de política digital montada pelo deputado federal André Janones (Rede-MG). Para Singer, ela espalhou as duas mudanças anteriores entre o eleitorado.

Congresso mais à direita e a meta de isolar o bolsonarismo

Singer diz que o PL ampliou a bancada no Senado e na Câmara, sem alcançar maioria, e que isso pesa na governabilidade. Ele avalia que Lula tem capacidade rara de negociar com o centrão e cita a aprovação, no terceiro mandato, da isenção do Imposto de Renda e da redução da jornada de trabalho quase por unanimidade.

Na leitura do professor, o bolsonarismo reúne cerca de 15% dos votos, número que é cálculo dele. Como a direita é fragmentada e tem candidatos pouco competitivos, a extrema direita acaba polarizando o campo. O desafio, afirma, é separar a extrema direita do conjunto da direita.

Singer observa ainda que a coalizão de 2026 difere da de 2022. Empresários de setores neutros ficaram fora da disputa, e o agronegócio apoiou abertamente o candidato derrotado.

Prorrogação do voto e pedido de anulação

O ministro Cristiano Zanin, do STF, prorrogou em duas horas a votação do segundo turno, até as 19h, em todas as seções do país. Ele atendeu a um pedido da campanha de Lula, que relatou restrições na circulação de ônibus em diversos estados. A campanha de Flávio também pediu extensão, mas só em alguns municípios.

Singer afirma que a decisão não afeta a legitimidade do resultado. Segundo ele, os eventos que levaram à prorrogação teriam prejudicado mais Lula, e a vitória é "completamente incontestável". O TRE-SP informou que 80% das seções paulistas já haviam encerrado a votação quando o STF ordenou a prorrogação. O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, disse que a medida trouxe dificuldades ao processo eleitoral.

Flávio discorda. Na noite de domingo, em Brasília, ele anunciou que não reconhece o resultado e que vai pedir a anulação do segundo turno, afirmando ser "impossível reconhecer o resultado".

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