Sérvia vota domingo (25) sob denúncias de intimidação; Vučić tenta voltar como premiê
Lista dos estudantes, com 250 candidatos, aparece emparelhada com o partido do governo em pesquisa da semana, e observadores da OSCE acompanham a votação.
Redação Bairrista · Repórter de Política · · 4 min de leitura

A Sérvia elege um novo Parlamento neste domingo (25), numa eleição antecipada marcada por relatos de ameaças, espancamentos e espionagem digital contra opositores, ativistas e estudantes. Aleksandar Vučić convocou a votação e renunciou ao segundo e último mandato como presidente para disputar o cargo de primeiro-ministro pelo partido dele. O governo nega as acusações.
Para quem acompanha de longe, o que está em jogo é o rumo de um país candidato à União Europeia. A eleição é vista como um marco que moldará o futuro do país por anos. Vučić enfrenta o maior desafio político desde que chegou ao poder. O movimento estudantil nasceu após o desabamento da cobertura da estação ferroviária de Novi Sad, que matou 16 pessoas em 2024, e lança 250 candidatos. Uma pesquisa divulgada na semana colocou os estudantes emparelhados com o Partido Progressista Sérvio (SNS), de Vučić.
O que denunciam opositores e ativistas
As denúncias foram reunidas em reportagem da Reuters publicada na quinta-feira (22). Segundo a agência, o ativista Marko Marjanovic voltava do supermercado, em Belgrado, quando policiais mascarados o puseram num carro. Ele foi levado ao porão de uma delegacia, onde ficou dois dias isolado. Dias antes, em agosto de 2025, a polícia o havia espancado durante protestos contra o governo.
Outro caso é o de Radovic, que estava entre 25 pessoas, algumas menores de idade, gravemente agredidas numa mesma noite, segundo laudo independente do perito forense Djordje Alempijevic. A Reuters verificou o vídeo da agressão. Ele levou dois meses para voltar a andar sem mancar.
No campo digital, a manifestante Jelena Kontic recebeu em março um aviso da Apple sobre o possível uso do programa espião Pegasus no celular dela. Testes posteriores, inclusive do Citizen Lab, confirmaram a infecção, segundo ela. Duas figuras da oposição foram alvo de ferramentas poderosas de ciberespionagem, de acordo com um deles e com relatório do Citizen Lab divulgado na segunda-feira (19). A Reuters não conseguiu determinar quem seria o responsável.
Imprensa pressionada e funcionários coagidos
O Índice Mundial de Liberdade de Imprensa 2026, dos Repórteres Sem Fronteiras, colocou a Sérvia na 104ª posição entre 180 países. É a pior posição da história do país e a pior da região dos Bálcãs na UE. A Fundação Slavko Ćuruvija calcula que Vučić atacou verbalmente jornalistas e veículos ao menos 182 vezes nos primeiros nove meses do ano. Vučić nega intimidar a imprensa e diz que não fechou nenhum órgão de comunicação.
Veran Matić, que dirige uma comissão para a segurança de jornalistas, contou que foi atacado em junho por um jovem que levou seu celular quando ele filmava um protesto. A Reuters não pôde verificar a ligação feita por ele entre a violência e Vučić, e o gabinete do político não respondeu.
Uma investigação da rede BIRN, citada pela revista European Correspondent, reuniu mais de 150 depoimentos de servidores públicos que dizem ter sido pressionados a votar no SNS e a ir a comícios de Vučić. A análise do centro de estudos ECFR aponta ainda que 500 mil eleitores sem endereço foram incluídos na lista eleitoral.
Como o governo responde
Vučić e o SNS negam repetidamente as acusações de repressão e corrupção. A Agência de Informação de Segurança da Sérvia chamou de "sensacionalismo trivial" as alegações de envolvimento do Estado nos casos de espionagem. Vučić, por sua vez, afirma que os adversários têm somas elevadas de origem desconhecida e cita os gastos de campanha da lista estudantil.
Quem são os candidatos dos estudantes
A lista se chama "Estudantes Vencem" (Students Win) e não tem estudantes entre os candidatos ao Parlamento. Vários partidos de oposição retiraram candidaturas em favor dela, para não dividir o voto. O programa tem 11 pontos e prevê instituições que funcionem sem ordens de comitês partidários, um Judiciário independente e mídia livre de pressão política.
As pesquisas na Sérvia são pouco confiáveis, segundo o ECFR, mas colocam a lista estudantil com ligeira vantagem sobre a coalizão de Vučić.
Observadores acompanham a votação
A missão de observação é coordenada pelo ODIHR, o escritório de eleições da OSCE. Uma delegação de sete eurodeputados, liderada por Andreas Schieder, do grupo S&D, integra a missão. O objetivo é avaliar se o pleito segue a lei sérvia e os padrões internacionais. A missão da UE na Sérvia, uma delegação do Conselho da Europa e o ODIHR alertaram recentemente para a forte polarização. Como em 2023, apontaram intimidação de eleitores e violência contra jornalistas.
Vučić diz querer a Sérvia na União Europeia. Ele rompeu com o ultranacionalista Partido Radical Sérvio em 2008. Antes da eleição, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, adiou viagem à Sérvia e à Bósnia "por causa das eleições".
Serviço
Os sérvios votam no domingo (25). A missão do ODIHR, com os sete eurodeputados, observa o pleito, e o escritório publicou em 9 de outubro um relatório intermediário sobre a campanha, disponível no site da OSCE.
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