Relatório do Lancet Countdown liga 710 mil mortes ao calor em 2023, recorde da série
Mais de 70% das mortes são atribuídas à mudança climática causada por atividades humanas, e o estudo sai antes da COP31, em novembro.
Redação Bairrista · Repórter de Clima · · 3 min de leitura

O calor esteve associado a 710 mil mortes no mundo em 2023, o maior número da série histórica, segundo o relatório do Lancet Countdown divulgado nesta quarta (28). O estudo é feito em colaboração com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Mais de 70% dessa carga é atribuída à mudança climática causada por atividades humanas.
O número é global e não permite calcular quantas mortes por calor ocorreram no Rio Grande do Sul. Para o leitor gaúcho, o relatório pesa no campo e na obra: agricultura e construção, setores com peso na economia do RS, são os que mais perdem com o calor. O estudo também mostra que os riscos à saúde crescem mais rápido que a resposta dos governos. Além do calor, ele aponta piora da seca, maior exposição a extremos hidrológicos e perdas econômicas ligadas ao calor.
O que o relatório calculou
A edição de 2026 é a 10ª do Lancet Countdown. Reúne 146 pesquisadores de mais de 100 instituições em mais de 30 países. O trabalho é liderado pela University College London e acompanha 54 indicadores que ligam clima e saúde.
Segundo a síntese dos autores, 2023 foi o ano mais quente do período, e 71,5% das mortes associadas ao calor foram atribuídas à mudança climática. Sem a mudança climática, o total ficaria em torno de 200 mil, segundo as estimativas. Os pesquisadores afirmam que o número supera o de mortes por malária ou HIV, conforme a cobertura da ABC News.
A série mais longa também sobe. Entre 2016 e 2023, o calor esteve associado a uma média de 540,8 mil mortes por ano, e 68% delas (369,9 mil) foram atribuídas à mudança climática. Em 2006–2015, a fatia era de 55%, ou 219,1 mil por ano. A média anual de mortes por calor aumentou quase 36% nos anos seguintes ao Acordo de Paris, em comparação com a década anterior. No total, a mudança climática teria causado quase 3 milhões de mortes por calor entre 2016 e 2023.
Perdas pesam mais na Ásia e na África
O relatório também mede o prejuízo econômico do calor. O Sudeste Asiático e a África foram os mais atingidos, com perdas equivalentes a 3,9% e 3,2% do PIB, contra 1,5% nas Américas e 0,2% na Europa. Agricultura e construção, com muito trabalho ao ar livre, concentraram 38% e 29% das perdas.
A conta chega ao campo e à obra, setores com peso na economia gaúcha. O relatório global, porém, não detalha esse impacto por estado.
Críticas aos fósseis e pedidos para a COP31
Os autores pedem que a mudança climática seja reconhecida como emergência global de saúde, com a saúde no centro de toda decisão climática. A diretora executiva do Lancet Countdown, Marina Romanello, disse: "Esses números apontam para uma emergência clara".
O texto critica a lentidão da transição energética. Os combustíveis fósseis ainda fornecem mais de 80% da energia do mundo, e as emissões atingiram nível recorde em 2024. Há avanços: o investimento global em energia limpa chegou a um recorde de US$ 2,1 trilhões em 2025. O ar mais limpo evita cerca de 323 mil mortes por ano em pelo menos 77 países que reduziram a poluição de origem fóssil desde 2016.
Na adaptação, 75 de 145 países respondentes da OMS declararam ter ao menos um sistema de alerta precoce de saúde que usa informações climáticas.
A OMS informou que a publicação vem antes da COP31, a conferência do clima da ONU marcada para novembro. O relatório completo está no site do Lancet Countdown, e o resumo da OMS está disponível no portal da organização.
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