PF cita Cláudio Castro e Ramagem em inquérito do STF sobre amigo de Flávio Bolsonaro
Apuração nasceu na Justiça Federal do RS, chegou ao Supremo em 8 de outubro e envolve licitação da Loterj e repasses de R$ 270 mil ligados a Ramagem.
Redação Bairrista · Repórter de Polícia · · 4 min de leitura

A Polícia Federal (PF) apura se houve irregularidades nas condutas do ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) e do ex-deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ). A investigação trata de suspeita de lavagem de dinheiro ligada ao advogado Willer Tomaz. Tomaz é amigo do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). O caso chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF) em 8 de outubro, e o ministro Alexandre de Moraes foi sorteado relator.
A origem é gaúcha. A apuração começou na Justiça Federal do Rio Grande do Sul, onde a PF investigava lavagem de dinheiro e evasão de divisas com uso de casas de apostas. A identificação de Flávio levou à remessa do caso ao Supremo, por causa do foro do senador. O segundo turno é no domingo (25).
O que a PF levou ao Supremo
Depois da quebra do sigilo telemático de Tomaz, os agentes encontraram e-mails que indicavam o cadastro de Flávio como "usuário master" de uma conta bancária da Alcazar Holdings, empresa do advogado. Um e-mail de 22 de maio de 2025 pedia a exclusão desse acesso. A PF diz ter encontrado "elementos indicativos de vínculo de controle ou propriedade de fato" de Tomaz sobre a Rede Loto. A empresa foi a primeira a obter autorização estadual no Rio para explorar apostas esportivas.
Os policiais também identificaram movimentações de cerca de R$ 130 milhões em uma conta de Tomaz entre março e maio de 2025. A investigação não estabeleceu que o montante pertença ao senador.
Licitação da Loterj e o papel de Castro
No pedido de abertura de investigação, a PF aponta possíveis irregularidades em uma licitação de 2022 da Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj), vencida pela Pixs Cobrança, hoje RioPag. Segundo o documento, Tomaz seria o dono de fato da empresa. A Loterj era presidida por Hazenclever Lopes, nomeado por Castro e, de acordo com os investigadores, próximo de Tomaz antes da nomeação.
Na disputa, a empresa ligada ao advogado ofereceu repassar 20% da remuneração à Loterj. A única concorrente ofereceu 26%, mas foi desclassificada por escrever o percentual com duas casas decimais, e não três, como pedia o edital. Sem rival, a Pixs negociou direto com a autarquia e subiu a oferta para 26,455%, conforme a apuração da PF.
A PF fala em suspeita de "facilitação dos interesses da empresa" na autarquia, mas pondera que o indício ainda carece de investigação.
Repasses de R$ 270 mil e a versão da Torre
Sobre Ramagem, o pedido da PF menciona pagamento de R$ 270 mil, dividido em três parcelas de R$ 90 mil. O beneficiário final seria o ex-deputado, que comandou a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) no governo Jair Bolsonaro. O favorecido formal era a Torre Comunicação Estratégica, e a PF investiga os repasses como ligados a ele.
A Torre afirma, em nota, que prestou serviço de assessoria de imprensa ao escritório de Tomaz e do advogado Eugênio de Aragão. Segundo a empresa, o escritório pediu planejamento estratégico, monitoramento e media training para um cliente, Ramagem, então pré-candidato a prefeito do Rio, por três meses. A Torre diz que emitiu nota fiscal e que foram três pagamentos de R$ 90 mil.
O que dizem os citados
Tomaz afirma que só soube do inquérito pela imprensa e que a defesa já pediu acesso aos autos. Diz que todas as empresas dele são lícitas, constam em registros públicos e na declaração de imposto de renda, e nega sócios ocultos, contas não declaradas e patrimônio escondido. Sustenta que a relação com Flávio é de amizade entre famílias. Afirma ainda que a PF não identificou ordem ou intervenção direta na desclassificação da concorrente, que teria decorrido do descumprimento de exigências formais do edital.
A assessoria de Castro diz que ele e Tomaz se conhecem desde 2020. Segundo a nota, o advogado atuou em processos da defesa do ex-governador sem cobrar honorários, e nas viagens que fizeram juntos cada um pagou as próprias despesas. Castro afirma que desconhecia o vínculo de Tomaz com a Pixs/RioPag na época da contratação e que não participou da licitação. Segundo a nota, Hazenclever foi indicação política do PL, e a Loterj tem gestão própria.
A defesa de Flávio afirma que a única relação com Tomaz é a amizade entre as famílias e chama a tentativa de atribuir irregularidades a ela de "mera ilação". A assessoria do senador também diz que não foi aberto novo inquérito contra ele, e que o caso enviado pela PF ao STF ainda está pendente de análise. Já a Agenda do Poder relata que a Procuradoria-Geral da República deu parecer favorável à abertura da investigação. As defesas de Ramagem e de Hazenclever Lopes foram procuradas e não responderam.
O STF não divulgou decisão de Moraes sobre quebra de sigilo, depoimentos ou outras medidas. A defesa de Tomaz aguarda acesso aos autos para se manifestar às autoridades.
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