Ormuz tem recorde de 28 ataques a navios em outubro; Trump sinaliza novos ataques ao Irã
Total chega a 113 desde 28 de fevereiro e 11 superpetroleiros foram danificados no mês, segundo a Reuters; Brent fecha a US$ 116,72 e pressiona o diesel gaúcho.
Por que afeta o RS: Petróleo alto encarece diesel, fertilizantes e frete para o agronegócio e o transporte gaúchos.
Redação Bairrista · Repórter de Política · · 12 min de leitura
Atualizada 25/10, 00:39 · Os alertas de viagem atualizados pelos EUA neste sábado (24) para mais de uma dúzia de países citam o aumento da ameaça dos houthis, aliados do Irã, segundo a Reuters.

O chanceler iraniano, Abbas Araghchi, afirmou nesta quarta (21) que Teerã e Washington seguem em negociações indiretas, por meio de mediadores. A conversa gira em torno da proposta de cessar-fogo de sete dias apresentada pelo Irã em setembro. No mesmo dia, um alto oficial da Guarda Revolucionária ameaçou atingir cabos de internet submarinos no Estreito de Ormuz e outros "investimentos" americanos. A ameaça vale caso os EUA lancem novos ataques à infraestrutura iraniana. Nesta sexta (23), dois altos funcionários iranianos disseram à Reuters que Teerã já elaborou planos para atacar os cabos, sete deles sob o estreito, segundo o Straits Times.
A televisão estatal iraniana informou nesta quinta (22) que sete petroleiros foram atingidos ou danificados durante a noite. Segundo a emissora, quatro embarcações pegaram fogo no norte do Golfo Pérsico enquanto transferiam petróleo entre navios. Outras três colidiram com minas navais a oeste do Estreito de Ormuz. A informação foi atribuída à Marinha da Guarda Revolucionária e não foi confirmada de forma independente. Se confirmado, é o maior número de embarcações danificadas em um único dia desde o início da guerra, em 28 de fevereiro.
Nesta sexta (23), o presidente dos EUA, Donald Trump, disse em comício na Flórida que os Estados Unidos podem fazer outra operação militar contra o Irã, sem detalhar alvos ou prazo. Antes disso, a BBC já havia informado que Estados Unidos e Israel elaboram planos para atingir alvos iranianos. A Guarda, por sua vez, ameaçou ampliar a resposta contra bases dos EUA na região se as provocações continuarem. O porta-voz Hossein Mohebi disse que o Irã poderá invadir qualquer nação que o ataque e que a corporação muda para uma doutrina de defesa "ofensiva e assimétrica".
Neste sábado (24), o general Ali Abdollahi, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas do Irã, afirmou que o país não permitirá a entrada de navios de guerra dos EUA no Golfo Pérsico e que forças americanas não voltarão ao Estreito de Ormuz, segundo a agência estatal IRNA, citada pela Associated Press. A declaração vem com o aumento dos ataques no Estreito de Ormuz e o receio de retomada dos combates em larga escala.
Também na sexta, o Departamento de Estado mandou reduzir o pessoal de embaixadas americanas na Jordânia, no Líbano, no Catar e nos Emirados Árabes Unidos. A decisão se apoia em um memorando de inteligência de 23 de outubro, assinado pelo diretor de Inteligência Nacional, Jay Clayton, e enviado ao secretário de Estado, Marco Rubio, segundo a Reuters. O texto afirma que o Irã ampliou os esforços para atingir funcionários dos EUA no exterior. As embaixadas continuam abertas. Neste sábado (24), o Departamento de Estado atualizou os alertas de viagem para mais de uma dúzia de países do Oriente Médio e do Golfo, citando o aumento da ameaça dos houthis, aliados do Irã, segundo a Reuters.
Também na quarta, o emir do Qatar, Tamim bin Hamad Al Thani, e o presidente da França, Emmanuel Macron, divulgaram declaração conjunta em defesa da liberdade de navegação no Estreito de Ormuz. Os dois países pediram que a passagem seja restabelecida sem restrições ou tarifas.
Para quem vive no Rio Grande do Sul, o impasse pesa no bolso. O estreito segue praticamente parado, o Brent fechou na sexta a US$ 116,72, maior valor desde abril, e o diesel, base do frete e da lavoura, já ficou mais caro no estado. A Fetransul, federação das transportadoras gaúchas, confirma pressão sobre os fretes e relata que empresas passaram a antecipar compras e formar estoques.
Trump fala em nova operação; BBC cita planos
Em Washington, a fala de Trump veio com a guerra perto de completar oito meses e com o preço dos combustíveis pressionando a política americana. Mais cedo no mesmo dia, o presidente afirmou que os EUA poderiam encerrar o conflito rapidamente, mas questionou se deveria buscar um fim imediato ou deixar a guerra perder força.
Trump já havia dito que não pretendia atacar o Irã antes das eleições legislativas americanas de 3 de novembro. A fala de sexta, na Flórida, não detalha se esse prazo continua valendo.
Segundo a BBC, os planos de Washington e Israel miram alvos no Irã, que não foram detalhados. Nenhum dos dois governos anunciou decisão de atacar. O relato e as falas do presidente americano surgem em meio aos danos a petroleiros no Estreito de Ormuz e mantêm os mercados de energia em alerta.
Uma nova ofensiva é justamente o gatilho citado pela Guarda Revolucionária para atingir cabos submarinos e bases americanas. Um ataque ampliaria o risco de guerra regional e pode empurrar o barril para cima, o que chega ao diesel e ao frete no RS.
EUA cortam pessoal em quatro embaixadas e reforçam alertas de viagem
O memorando de Clayton, datado de 23 de outubro e endereçado a Rubio, afirma que planos iranianos letais contra americanos chegaram a estágios avançados no Oriente Médio e em outros países. A ABC News, que revelou o documento, cita um funcionário americano confirmando sua autenticidade. Em resposta, o Departamento de Estado determinou a redução de equipes nas embaixadas na Jordânia, no Líbano, no Catar e nos Emirados Árabes Unidos.
Neste sábado (24), a pasta foi além e atualizou os alertas de viagem para mais de uma dúzia de países do Oriente Médio e do Golfo, segundo a Reuters. Os avisos citam o aumento da ameaça dos houthis, aliados do Irã, e orientam cidadãos americanos que estejam ou pensem em viajar à região. A medida ocorre em meio a ataques contra interesses americanos e à escalada regional ligada à guerra.
O Catar é um dos mediadores das conversas entre Irã e Estados Unidos. A medida chega junto com as ameaças da Guarda a bases americanas e com os planos de nova operação militar citados por Trump e pela BBC, o que alimenta o temor de ampliação do conflito e de novo salto no preço do petróleo.
O que está em negociação
A proposta iraniana prevê o fim do bloqueio naval americano a portos e navios do Irã, a retirada das sanções sobre a venda de petróleo iraniano, a reabertura do Estreito de Ormuz e a liberação de ativos congelados. Pelo plano, o estreito seria totalmente reaberto no sexto dia. Trump rejeitou o texto no mês passado.
Segundo Araghchi, os americanos disseram concordar com as condições, mas querem acrescentar algumas cláusulas. Ele afirmou que as condições tratam de temas já discutidos em negociações anteriores e que Teerã exige que Washington cumpra antes os compromissos do Memorando de Islamabã. Paquistão e Qatar estão entre os países que facilitam as conversas.
Istambul reúne oito países e defende diplomacia
O ministro das Relações Exteriores da Turquia, Hakan Fidan, recebeu nesta sexta (23), em Istambul, representantes de Egito, Paquistão, Arábia Saudita, Reino Unido, França, Alemanha e Itália. A informação prévia sobre o encontro veio de uma fonte diplomática citada pela Reuters. Foi a primeira reunião nesse formato, por iniciativa turca.
Ao fim do encontro, Fidan afirmou que um novo ataque ao Irã ampliaria o conflito e defendeu a diplomacia como única saída. O ministro francês Jean-Noël Barrot disse que uma nova escalada entre Irã e Estados Unidos elevaria o preço do petróleo. Autoridades da Alemanha, da França e do Reino Unido declararam estar dispostas a negociar com Teerã sobre o programa nuclear iraniano.
A pauta incluía Oriente Médio, Estreito de Ormuz, Iêmen e a guerra na Ucrânia. A Turquia defende solução diplomática para o conflito entre EUA e Irã e a liberdade de navegação em Ormuz e no Estreito de Bab el-Mandeb.
Guarda fala em invasão, muda doutrina e Estado-Maior veta navios dos EUA no Golfo
Segundo a Al Jazeera, Mohebi afirmou que o país poderá invadir qualquer nação que o ataque. A Guarda Revolucionária declarou que adota uma doutrina de defesa "ofensiva e assimétrica".
A emissora também relatou exercícios de dezenas de caças israelenses junto às fronteiras ocidentais do Irã, com base em relatos da imprensa americana. Araghchi disse que Teerã busca uma solução pacífica, mas está preparado para se defender.
A declaração de Abdollahi neste sábado (24) se soma a esse tom: além de vetar navios de guerra americanos no Golfo Pérsico, ele disse que forças dos EUA não voltarão a Ormuz. O Golfo Pérsico é a via de acesso ao Estreito de Ormuz, por onde passava parte relevante do petróleo mundial antes da crise.
Qatar e França pedem Ormuz sem tarifas
A declaração conjunta de Al Thani e Macron também cobra a implementação do cessar-fogo em Gaza e a retirada de forças israelenses conforme os arranjos acordados. Os dois países pedem ainda a entrega segura e sem impedimentos de ajuda humanitária. O Qatar é um dos mediadores das conversas entre Irã e Estados Unidos.
ONU liga guerras a alimentos e combustíveis
O secretário-geral da ONU, António Guterres, relacionou nesta quinta (22), em Nova York, o avanço dos conflitos à alta do custo de vida e ao descontentamento social. Ele citou aumentos nos preços de alimentos, combustíveis e itens essenciais, além de juros elevados.
Guterres pediu proteção a civis, respeito ao direito internacional e espaço para a diplomacia. Ele anunciou que viaja ao Egito na sexta (23).
Irã tem planos para atacar sete cabos submarinos sob Ormuz
A ameaça aos cabos partiu primeiro de um oficial da Guarda Revolucionária, segundo a emissora americana CBS News. Nesta sexta (23), dois altos funcionários iranianos disseram à Reuters que Teerã elaborou planos para atacar cabos de comunicação submarinos no Golfo se os EUA e Israel voltarem a atacar o Irã. Segundo o Straits Times, que atribuiu o relato à Reuters, os planos envolvem sete cabos importantes sob o Estreito de Ormuz. Um dos funcionários afirmou que o país buscaria impedir os reparos, para prolongar as interrupções nas comunicações e na internet.
A União Internacional de Telecomunicações estima que os cabos submarinos transportem cerca de 99% do tráfego global de internet. Um ataque poderia afetar comunicações e serviços digitais muito além do Oriente Médio, usados por empresas e moradores de vários países, inclusive do Rio Grande do Sul, e ampliaria o risco de nova escalada militar.
Novas sanções dos EUA
Também nesta quarta, o Tesouro dos EUA divulgou nova rodada de sanções. Dentro da Operação Economic Outcast, sancionou o escritório de advocacia Karnakis and Karnakis, com sede no Panamá e na Grécia. O Tesouro acusa o escritório de apoiar por anos o transporte marítimo ilícito do Irã. Cinco pessoas ligadas ao escritório também foram incluídas, segundo o Tesouro. A lista alcança ainda empresas de navegação e agentes marítimos, como a Roxette Maritime Shipping and Trading, que opera sete cargueiros com bandeira do Panamá.
As sanções seguem a Ordem Executiva 13902, que mira o setor de petróleo e outros setores da economia iraniana. Elas são aplicadas a pessoas e empresas dos setores iranianos de ativos digitais, tecnologia, ouro, aviação e transporte marítimo.
Ormuz quase parado, recorde de ataques e Brent a US$ 116,72
Outubro é o mês com mais ataques a navios comerciais no Estreito de Ormuz e em águas próximas: 28 casos confirmados ou relatados, segundo levantamento do Washington Institute publicado pela Reuters na sexta (23). Desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, o total chega a 113. A Organização Marítima Internacional contabiliza 120 incidentes na região mais ampla no mesmo período.
Mais de 30 superpetroleiros foram danificados desde o início do conflito, 11 deles em outubro, conforme revisão da Reuters. Ataques persistentes encarecem petróleo, seguros e transporte marítimo.
O tráfego comercial no estreito segue muito abaixo do normal. Segundo o rastreador straits.live, com dados do FMI, foram 4 embarcações em 18 de outubro, contra 85 por dia antes da crise. Na terça (20), Araghchi disse que o estreito continuará fechado enquanto Washington não aceitar as condições de Teerã.
O Brent subiu mais 3% na quinta (22) e passou de US$ 112 por barril, com temor de interrupção no abastecimento, segundo a Reuters. Na sexta (23), o barril fechou a US$ 116,72, alta de 3,14% e maior valor desde abril, com o mesmo receio de falta de oferta. Na madrugada de quarta, estava em US$ 110,46. Na segunda (19), fechou a US$ 109,68, o maior nível em cinco meses até então. A Reuters contou, com dados da Kpler, ao menos 18 ataques a petroleiros em duas semanas. Bombardeios e ataques continuaram no Oriente Médio apesar dos movimentos diplomáticos.
Diesel e fretes no RS
A Petrobras reajustou em R$ 1 por litro o diesel A vendido às distribuidoras desde 17 de setembro, mas uma subvenção federal de mesmo valor compensa o aumento. Mesmo assim, o custo chegou à ponta. Em Lajeado, no Vale do Taquari, o diesel S-10 passou de R$ 6,32 para R$ 6,72 por litro em uma semana, segundo a ANP.
No campo, a Farsul recebeu relatos de produtores pagando, em algumas negociações, mais de R$ 1 por litro acima dos valores anteriores. O presidente da federação, Domingos Velho, levou as queixas à diretoria da ANP e pediu providências regulatórias. O presidente da Fetransul, Francisco Cardoso, disse que as empresas compram mais para garantir estoque, mas o preço subiu, o que pressiona os fretes e tem efeito inflacionário.
Para reforçar o abastecimento, a Petrobras contratou a importação de 650 milhões de litros de diesel para outubro e afirma que não há cenário de desabastecimento generalizado.
O que vem a seguir
Araghchi disse que, se os EUA cumprirem as condições iranianas, o Estreito de Ormuz reabre no sexto dia e as negociações formais começam no sétimo. Até lá, a posição de Teerã é manter o estreito fechado e, segundo Abdollahi, barrar navios de guerra americanos no Golfo Pérsico. Trump falou em nova operação militar, mas EUA e Israel não anunciaram decisão. Washington já reduziu equipes diplomáticas em quatro embaixadas da região e atualizou alertas de viagem para mais de uma dúzia de países, citando a ameaça dos houthis. As eleições legislativas americanas, em 3 de novembro, são o próximo marco no calendário político de Washington. Os países reunidos em Istambul defendem a diplomacia para evitar nova escalada.
Atualização: Os alertas de viagem atualizados pelo Departamento de Estado neste sábado (24) para mais de uma dúzia de países do Golfo e do Oriente Médio citam o aumento da ameaça dos houthis, aliados do Irã, segundo a Reuters. A informação entrou no sexto parágrafo, na seção sobre as embaixadas e no resumo do que vem a seguir.
Saber mais: fontes consultadas (46)
- CBS News – Iran says indirect talks with U.S. continue
- Borna News – Entrevista de Araghchi à Al Ekhbariya
- Gulf News – Hormuz stays shut until US accepts Iran's 7-day deal
- Departamento do Tesouro dos EUA – Operation Economic Outcast Targets Iran's Shadow Fleet Networks
- JNS – US sanctions law firm, shipping agents
- OFAC – Alert to Foreign Financial Institutions
- Straits.live – Strait of Hormuz Live Tracker
- OilPrice.com – Brent Tops $110
- Jornal Força do Vale – Diesel mais caro pressiona fretes
- Fetransul – Crise do diesel piora
- Mixvale – Diesel bate R$ 7,30 no RS
- Al Jazeera – Iran war live: IRGC vows invasion as defence doctrine turns offensive
- Al Jazeera – Qatar e França pedem abertura de Ormuz e implementação do cessar-fogo em Gaza
- KSAT – Iran says 7 tankers on fire or damaged in the Strait of Hormuz
- Reuters – Global markets, 22/10/2026
- AP News – Mideast, 22/10/2026
- Al Jazeera – Iran war live (atualização de 22/10)
- News & Observer
- ABC News – Iran live updates
- Bradenton (Reuters) – Turquia recebe chanceleres em Istambul
- BBC – Planos de EUA e Israel para novos ataques ao Irã
- ONU Notícias (espanhol)
- ONU Notícias (chinês)
- Reuters – Global markets view, 22/10/2026
- Reuters – Item de 22/10/2026
- Al Jazeera – Trump hints new strikes
- WPXI – Asian shares slip
- Reuters – Item de 23/10/2026
- Reuters – Global markets view, 23/10/2026
- Reuters – Istambul: chanceler turco alerta contra novo ataque ao Irã
- Reuters – Trump diz que EUA podem fazer nova operação militar contra o Irã
- Reuters – Ataques a navios no Estreito de Ormuz atingem recorde em outubro
- Reuters – Irã tem planos detalhados para atingir cabos submarinos no Golfo se a guerra for retomada
- Reuters – Trump pondera fim rápido da guerra com o Irã ou deixar o conflito se arrastar
- MarketScreener – Oil prices rise more than 1% as supply concerns linger
- Kansas.com – Nation & World (1)
- Kansas.com – Nation & World (2)
- Al Jazeera – Trump hints new strikes, says US knocked hell out of Iran (atualização 5075621)
- AP News – Mideast, 23/10/2026
- ABC News – Iran live updates (23/10)
- Straits Times – While you were sleeping: 5 stories you might have missed, Oct 24, 2026
- ABC News – Iran live updates
- AP News – Mideast, 24/10/2026
- Jerusalem Post – Live updates, 24/10/2026
- AP News – Mideast, 24/10/2026 (versão article)
- Reuters – Irã ampliou esforços para atingir funcionários dos EUA, alerta memorando de inteligência
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