Houthis chegam a 80 km de Áden e a ONU encerra missão no Saara Ocidental
Rebeldes iemenitas avançam sobre a sede do governo, com mais de 300 mil deslocados; no norte da África, a MINURSO entra em liquidação após 35 anos.
Redação Bairrista · Repórter de Política · · 6 min de leitura
Atualizada 31/10, 06:06 · Entraram o ataque hutí com mísseis balísticos contra Aden, no Iêmen, em 30 de outubro, sem vítimas, e o total de mais de 281 mil deslocados no país, segundo a ONU.

Quatro fontes militares disseram à agência Reuters, nesta segunda (2), que os houthis, grupo rebelde iemenita alinhado ao Irã, chegaram a 80 km de Áden, sede temporária do governo reconhecido internacionalmente. A ofensiva em Al-Maqatirah começou três dias antes, e os rebeldes teriam tomado o distrito inteiro. O governo e a ONU não confirmaram.
O efeito para o gaúcho é indireto. A guerra se espalha pela Península Arábica, e a Região Oriental da Arábia Saudita é central para a produção mundial de petróleo. Uma alta que atinja a oferta pode chegar ao preço dos combustíveis no Rio Grande do Sul. Na mesma semana, a ONU encerrou a missão de paz no Saara Ocidental, sem efeito direto no estado.

O que aconteceu
A região de Al-Maqatirah fica sobre a estrada entre Taiz e Áden, último elo entre o território do governo e Taiz. Segundo as fontes, os houthis forçaram as tropas do governo a recuar para Tur al-Bahah. Na segunda, havia combate em um acampamento militar na entrada desse distrito, uma das principais vias de acesso a Áden.

Na sexta (30), autoridades militares iemenitas disseram que os houthis lançaram mísseis balísticos contra a cidade portuária. Não houve vítimas registradas. Um ataque a um mercado no sudoeste do país matou três pessoas, duas delas crianças, segundo o Ministério da Saúde, controlado pelos houthis.
A Reuters afirma que a violência destruiu a trégua mediada pela ONU em 2022, que havia contido os grandes ataques da guerra iniciada em 2014. O enviado especial da ONU para o Iêmen não declarou formalmente o fim da trégua.
Arábia Saudita sob drones
A coalizão liderada pela Arábia Saudita disse ter destruído, na madrugada de sábado (31), um drone sobre a Região Oriental, rica em petróleo, e outro lançado em direção à Região Sul. Na sexta, havia relatado a derrubada de um drone sobre Medina, que abriga um dos locais mais sagrados do Islã e recebe milhões de peregrinos por ano.
A interceptação em Medina foi o quarto ataque hutí relatado naquele dia. Antes, a coalizão anunciara a queda de um míssil balístico contra a região sul, de um míssil de cruzeiro rumo ao oeste e de um drone na região de Meca. O general Turki Al-Maliki, porta-voz da coalizão, atribuiu aos hutís o drone sobre Medina. Segundo a Reuters, um porta-voz do grupo negou ataque à Arábia Saudita na sexta e disse que as operações visam instalações petrolíferas e bases militares sauditas.
Os ataques seguem semanas de investidas contra cidades, aeroportos e instalações de energia sauditas. Um míssil que atingiu o Aeroporto Internacional Rei Khalid, em Riad, em 10 de outubro, matou 13 viajantes e deixou mais de 300 feridos. O Departamento de Estado dos EUA ordenou que funcionários não essenciais e seus familiares deixem a Arábia Saudita. A ordem vale desde 23 de outubro e só foi divulgada na sexta. A embaixada alertou para novos ataques, fechamento do espaço aéreo e cancelamento de voos.
Deslocados e Taiz isolada
A Organização Internacional para as Migrações (OIM) informou que mais de 300 mil pessoas deixaram suas casas no Iêmen com a retomada dos combates, segundo a Associated Press. O dado atualiza o número da ONU, de mais de 281 mil. A OCHA, braço humanitário da ONU, havia contabilizado 231.991 deslocados entre 1º de agosto e 14 de outubro, três quartos deles da província de Taiz.
Taiz, terceira maior cidade do país, está cada vez mais isolada desde o início de outubro, quando bloqueios de estrada cortaram o abastecimento humanitário e comercial. A produção de água caiu cerca de 50%, e os preços dos alimentos subiram aproximadamente 50%. Combustível e gás de cozinha estão escassos. Hospitais relatam estoques de medicamentos, oxigênio e combustível perto do fim.
Em 23 de outubro, o porta-voz da OCHA, Jens Laerke, disse que era muito difícil entrar em Taiz ou sair dela após 20 dias de isolamento. Mais de 800 mil pessoas na cidade estavam sem acesso à assistência do Programa Mundial de Alimentos.
Nova frente na guerra contra o Irã
Os confrontos entre a coalizão, que apoia o governo reconhecido, e os houthis, que controlam a capital Sanaa, abriram outra frente na guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. A escalada ocorre em meio à crise no estreito de Ormuz e à pressão sobre os mercados de energia. A coalizão respondeu ao avanço com mais ataques a posições houthis.
Saara Ocidental: fim da MINURSO
A missão de paz da ONU no Saara Ocidental, a MINURSO, chegou ao fim depois de 35 anos. O mandato expirou à meia-noite de sábado (31), depois de o Conselho de Segurança rejeitar, na sexta, os dois projetos em votação. No domingo (1º), o secretário-geral António Guterres informou que a liquidação começava naquela data.
O texto dos EUA estendia a missão por mais um ano, firmava o plano de autonomia de Marrocos como base das negociações e reduzia o componente militar. Teve 11 votos a favor e três abstenções (China, Paquistão e Somália), mas a Rússia vetou. O texto russo previa prorrogação até 31 de outubro de 2027. Teve três votos favoráveis (China, Somália e Rússia), um contrário (EUA) e 11 abstenções, longe dos nove necessários.
O embaixador americano, Mike Waltz, disse que a missão não cumpriu em 35 anos o objetivo de organizar um referendo. O russo, Vassily Nebenzia, rebateu: "O Conselho de Segurança não pode predeterminar automaticamente questões de soberania".
A MINURSO existia desde 1991 e monitorava o cessar-fogo entre Marrocos e a Frente Polisário, que reivindica o território. A liquidação será supervisionada por uma pequena equipe ligada ao Departamento de Apoio Operacional da ONU, com os bens voltando aos países que cederam tropas.
Reações
Guterres pediu que todas as partes cooperem para um processo ordenado e rápido. Disse seguir preocupado com a segurança na região e com o risco de nova escalada, e afirmou que a saída da missão não anula o direito inalienável do povo saarauí à autodeterminação. Waltz defendeu que a redução da presença da ONU proteja o pessoal e atenda a necessidades humanitárias.
O Gabinete Real de Marrocos celebrou o resultado e disse que pessoal, veículos e equipamentos devem deixar as províncias do sul em poucos dias. Quer o tema fora da pauta do Conselho. A Frente Polisário, por meio de Sidi M. Omar, disse que o texto americano prejudicaria a autodeterminação do povo saaraui e que não participará de processo contrário a esse direito. A ONG Oxfam alertou que a perda da missão pode colocar refugiados em risco.
O que ainda não se sabe
O governo iemenita não confirmou a perda de Al-Maqatirah. A ONU não divulgou cronograma final da liquidação da MINURSO, e o Conselho não marcou nova votação. O enviado Staffan de Mistura segue à frente dos esforços por uma solução política para o Saara Ocidental.
O que muda para o RS
Não há comunicado oficial sobre reflexos para o Brasil. O ponto de atenção é o petróleo: ataques à Região Oriental saudita e a crise em Ormuz pressionam os mercados de energia, e uma alta da oferta global pode chegar ao diesel e à gasolina nos postos gaúchos. Novas atualizações da OCHA sobre o Iêmen saem em unocha.org.
Perguntas frequentes
Onde estão os houthis agora?
Quatro fontes militares disseram à Reuters, na segunda (2), que o grupo chegou a 80 km de Áden e tomou o distrito de Al-Maqatirah. O governo iemenita e a ONU não confirmaram a tomada.
Quantos deslocados há no Iêmen?
A OIM fala em mais de 300 mil pessoas, segundo a AP. A OCHA, da ONU, tinha contabilizado mais de 281 mil com dados até 25 de outubro.
Os houthis atacaram a Arábia Saudita?
A coalizão saudita diz ter derrubado drones sobre Medina, a Região Oriental e a Região Sul. Um porta-voz do grupo negou ataque ao país na sexta (30) e disse que os alvos são instalações petrolíferas e bases militares sauditas.
Por que a missão da ONU no Saara Ocidental acabou?
O Conselho de Segurança rejeitou, na sexta (30), os dois projetos de renovação: EUA e Rússia vetaram o texto um do outro. O mandato da MINURSO venceu à meia-noite de sábado (31).
O que acontece com a MINURSO agora?
Começou a fase de liquidação, anunciada por António Guterres no domingo (1º). Os bens voltam aos países que cederam tropas, e a ONU não divulgou cronograma final.
Isso afeta o Rio Grande do Sul?
De forma indireta. Uma alta do petróleo por causa da escalada saudita pode chegar ao preço dos combustíveis. O Saara Ocidental não tem efeito direto.
Saber mais: fontes consultadas (24)
- Arab News (comunicado do porta-voz da coalizão saudita)
- Anadolu Agency via USMuslims (comunicado da coalizão)
- Reuters via Al-Monitor (negativa dos hutís)
- U.S. News
- Reuters
- Associated Press
- Conselho de Segurança da ONU, comunicado de imprensa
- Missão dos EUA na ONU, explicação de voto
- UNifeed, Nações Unidas
- Hespress
- Yabiladi
- Reuters, via The Standard (Hong Kong)
- Western Sahara Resource Watch
- AP, via QC News
- The Star (Malásia)
- ONU News: Western Sahara, UN stands ready to keep supporting peace efforts
- Eurasia Review: Western Sahara, UN stands ready to keep supporting peace efforts
- The New Arab: UN announces liquidation of MINURSO
- Yabiladi: UN announces end of MINURSO mandate
- OCHA, Situation Update No. 5 (Iêmen)
- OCHA/ReliefWeb, Situation Update No. 6 (Iêmen)
- ONU News, Yemen: Deepening concerns for Taiz City as aid is blocked
- Reuters, Yemen's Houthis advance to within 80 km of Aden, sources say
- Associated Press
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