Economistas alertam para risco em plano de Flávio de a Caixa comprar dívidas de inadimplentes
Proposta prevê carência de seis meses para pessoas físicas e de um ano para empresas, mas não informa o tamanho do programa nem a fonte do dinheiro.
Redação Bairrista · Repórter de Economia · · 3 min de leitura

Economistas avaliam que a promessa do candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, de comprar dívidas de inadimplentes junto aos bancos e renegociá-las pela Caixa pode transferir risco privado ao setor público. Também apontam o risco de encarecer o crédito no futuro. A proposta foi apresentada no debate da Band, no domingo (18), e entrou no centro da discussão sobre endividamento na reta final da campanha.
Para quem vive no RS e no resto do país, a discussão chega num momento em que a maioria das famílias deve a alguém. Em setembro, o indicador de endividamento marcou 81,7%, ante 82% em agosto, o primeiro recuo desde dezembro de 2025. O percentual é nacional, da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), da Confederação Nacional do Comércio (CNC).
O que Flávio propõe
Segundo o candidato, o governo compraria dívidas de brasileiros junto aos bancos e suspenderia os pagamentos por seis meses para pessoas físicas e um ano para empresas. No debate, ele disse que a compra sairia por "um valor muito menor" que o original. A renegociação seria feita com refinanciamento pela Caixa Econômica Federal.
O plano não define o alcance nem o tamanho do programa. A campanha também não informou o preço de compra das carteiras nem como a Caixa seria remunerada. Flávio sustenta que a melhora das expectativas com uma eventual vitória abriria espaço superior a R$ 200 bilhões no orçamento, mas ele não apresentou cálculos detalhados.
O programa de governo ainda prevê o mecanismo Ganha-Ganha, que oferece condições melhores de financiamento a quem mantém as contas em dia, conclui cursos ou formaliza a atividade econômica.
O alerta dos economistas
Murilo Viana, mestre em economia pela Unicamp e especialista em finanças públicas, afirma que usar a Caixa nesse tipo de operação é "um risco gigantesco" de transferir a dívida privada para uma instituição pública.
Daniel Duque, economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), vê efeito sobre a oferta de crédito. Segundo ele, a expectativa de novas renegociações pode mudar o comportamento de bancos e consumidores. "Se o governo pode fazer isso agora, quem garante que não fará de novo daqui a dois anos?", diz.
E o plano de Lula
O presidente Lula (PT) aposta na ampliação do Desenrola, com descontos sobre débitos antigos e medidas específicas para microempreendedores. Em sabatina na TV Globo, na sexta-feira (16), ele disse que uma medida provisória em tramitação na Câmara prevê um leilão para a compra, pela União, de débitos superiores a dois anos e de até R$ 4 mil. Nesta sexta (23), a campanha anunciou a intenção de perdoar cerca de R$ 15 bilhões em dívidas de empresas de eventos, bares e restaurantes do Simples Nacional.
Lula defende o crescimento econômico e a valorização da renda como caminhos para melhorar a situação financeira das famílias. Flávio, por sua vez, responsabiliza a política fiscal do governo Lula pelos juros elevados e promete reduzir gastos públicos.
O retrato da PEIC
O endividamento chegou a 82,2% em abril e maio, o pico do ano. A CNC projeta que feche 2026 relativamente estável, em torno de 81,5%. A parcela de famílias com contas em atraso caiu de 29,9% para 29,6% entre agosto e setembro.
Já o tempo médio de atraso subiu pelo segundo mês seguido, para 65,3 dias, o mais longo desde novembro de 2024. A CNC informou que o efeito da medida provisória que barrou as bets ainda não aparece na pesquisa de setembro e poderá ser medido em outubro.
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