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Checagem desmente que ato em SP tenha ameaçado Bolsonaro; cantiga é da Jurema

Coletivo Bereia classifica como falsa a leitura do vídeo do Largo da Batata, compartilhado por Nikolas Ferreira e usado para atacar religiões afro-brasileiras.

Redação Bairrista · Repórter de Política · · 3 min de leitura

Ilustração do Bairrista sobre: Symbolic, non-literal editorial illustration (no reenactment of the event, no people): Symbolic night view of an open city square with warm
Ilustração: Bairrista

O Coletivo Bereia, que verifica informações de cunho religioso, classificou como falsa a versão de que manifestantes ameaçaram de morte Bolsonaro durante o ato Tambores pela Democracia. O ato foi nesta quinta (22), no Largo da Batata, na zona oeste de São Paulo. O vídeo mostra um momento do ato, mas não há elementos para afirmar que uma ameaça de morte contra Bolsonaro, pai ou filho, tenha sido entoada.

A checagem chega na reta final da campanha. O segundo turno da eleição presidencial é neste domingo (25), na disputa entre o candidato Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O vídeo circula em grupos e redes e serve de base para associar umbanda, candomblé e outras religiões de matriz africana a uma suposta "guerra espiritual" contra o candidato.

O que o vídeo mostra e quem o espalhou

Nas imagens, um grupo canta sobre "manter Bolsonaro amarrado num cipó" e roda em volta de velas e objetos da celebração. O registro foi compartilhado por uma conta secundária associada ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), com 6,2 milhões de seguidores no Instagram. Na legenda, o deputado escreveu: "A gente não ora o Pai-Nosso à toa". O pastor Naor Pedroza, da igreja Videira, também republicou as imagens e pediu aos seguidores que não sejam ingênuos diante de uma "dimensão espiritual" da política.

Publicações sobre o vídeo atribuem o canto a praticantes de umbanda e candomblé e o interpretam como ameaça ao ex-presidente Jair Bolsonaro. O Bereia classifica como falso o conteúdo publicado pelo Pleno News e por lideranças políticas e religiosas evangélicas.

Cantiga é da Jurema e pede contenção

O pai de santo David Dias, ouvido pelo Bereia na condição de organizador do evento, explicou a origem do canto. A cantiga pertence à tradição da Jurema e tem uma versão conhecida com os versos "vamos dançar, dançar o catimbó, para trazer o inimigo amarrado no cipó". Segundo ele, a letra foi adaptada durante a manifestação para identificar o adversário político do grupo.

Dias disse que o cipó representa a própria mata e que a imagem do inimigo amarrado nele é um pedido para que a floresta contenha quem pretende destruí-la. A Jurema é uma religiosidade afro-indígena de origem nordestina. Para Dias, a cantiga não busca causar a morte ou a doença de ninguém, mas conter a força de quem ameaça a mata e os povos tradicionais.

A pesquisadora Carolina Rocha, do Instituto de Estudos da Religião (Iser) e autora do livro "A Culpa é do Diabo", diferencia os dois sentidos. Para ela, uma comunidade que invoca proteção espiritual não pede a morte de uma pessoa. Expressões como "amarrar inimigos" ou "dar um nó" podem ter sentido ritual de proteção, contenção e afastamento de forças consideradas ameaçadoras, sem desejo literal de violência.

Serviço

Quem presenciar ou sofrer ofensa ou discriminação por motivo religioso pode denunciar pelo Disque 100, canal do governo federal para violações de direitos humanos. A checagem completa do Coletivo Bereia está publicada no site do grupo, coletivobereia.com.br.

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