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87,3% das alegações de saúde checadas pela Lupa desde 2017 eram falsas, aponta relatório

Vacinas e Covid-19 concentram os casos, o diabetes é a doença mais usada para vender produtos, e o WhatsApp aparece em mais de 70% das checagens.

Redação Bairrista · Repórter de Geral · · 4 min de leitura

Foto: 87,3% das alegações de saúde checadas pela Lupa desde 2017 eram falsas, aponta relatório
Foto: Divulgação/Agência Brasil

Das 764 alegações sobre saúde verificadas pela Agência Lupa entre 2017 e junho de 2026, 667 (87,3%) eram falsas. O dado está no relatório Raio-X da Desinformação em Saúde, divulgado neste sábado (24) pelo Observatório Lupa, núcleo de pesquisa da agência, com apoio da Afya, grupo de educação médica e soluções digitais para profissionais de saúde.

Quem recebe mensagem de saúde no grupo da família encontra no estudo os sinais mais comuns do golpe: falsa autoridade médica ou científica, linguagem alarmista, estudo distorcido e promessa de solução simples para problema complexo. Quando o apelo emocional se junta a uma "cura" milagrosa e a um suposto aval de médico, a chance de ser desinformação é grande, segundo a Lupa.

O levantamento reuniu 498 checagens de conteúdos virais ou potencialmente virais. Como uma checagem pode examinar várias afirmações, o total de alegações supera o de publicações. A Lupa não fixa um mínimo de visualizações ou compartilhamentos para considerar um conteúdo viral. Ela avalia também o contexto de circulação, as plataformas e as sugestões do público.

Pandemia multiplicou as checagens

Em 2020 e 2021, a agência verificou 452 conteúdos sobre saúde, cerca de dez vezes os 44 analisados entre 2017 e 2019. A Covid-19 respondeu por 82,3% das alegações checadas nesse período.

Segundo a Lupa, o salto vem da insegurança com a doença, as vacinas e a prevenção, e também de mudanças na própria agência, que intensificou as checagens e lançou, no fim de 2020, um serviço para receber sugestões pelo WhatsApp.

Em todo o período, a Covid-19 esteve em 61% das checagens. Tratamentos, curas e prevenção representaram 34% das alegações, e alimentos, bebidas e nutrição, 24%. As categorias não são excludentes. Uma das publicações afirmava que um chá de limão, alho e jambu aliviaria os sintomas da Covid e dispensaria o hospital.

Vacinas seguem no alvo

Entre 2017 e 2019, as vacinas correspondiam a 9,1% das alegações. A fatia subiu para 33,2% em 2020 e 2021, com afirmações de que os imunizantes contra a Covid causariam infertilidade, complicações na gravidez e danos a crianças. Circularam ainda teorias de que as doses teriam chips, grafeno ou alterariam os genes.

Entre 2022 e 2024, o percentual chegou a 38,9%. Ganharam espaço alegações sobre supostos efeitos nocivos das vacinas e métodos para "desintoxicar" o organismo, como protocolos com vitaminas, carvão ativado e ivermectina contra a Covid.

De janeiro de 2025 a junho de 2026, a proporção caiu para 20%, ainda acima do nível anterior à pandemia. Das 244 alegações sobre vacinas examinadas no total, 86,9% foram classificadas como falsas.

Medo e urgência ganham peso

A estratégia mais frequente foi recorrer a uma falsa autoridade médica ou científica, em 21,6% dos casos. Vieram a seguir a linguagem alarmista (17,1%), a distorção de estudos e dados (15,7%) e a promessa de solução simples para problema complexo (12,6%).

A exploração do medo e da urgência passou de 18,3% das alegações entre 2022 e 2024 para 33,8% de janeiro de 2025 a junho de 2026, a maior proporção entre os períodos analisados. Mensagens que anunciam perigos graves e pressionam a agir ou compartilhar rápido dificultam a checagem, sobretudo quando prometem soluções milagrosas.

Vídeos manipulados por inteligência artificial também dão aparência de legitimidade ao conteúdo falso. "É o caso, por exemplo, dos vídeos que mostram o médico Drauzio Varella supostamente falando sobre os benefícios de algum produto", afirma Maiquel Rosauro, analista de inteligência júnior da Lupa.

Em setembro, o Ministério da Saúde informou ter identificado 97 perfis que simulavam médicos e outros profissionais, com uso de IA, para divulgar informações falsas e promessas de cura. A AGU (Advocacia-Geral da União) notificou o YouTube sobre os conteúdos.

Desinformação também vira negócio

A Lupa identificou ainda a exploração comercial da desinformação, com publicações que levam o público a comprar produtos ou serviços. O diabetes foi a doença mais explorada, com promessas de controlar ou reverter a doença, dispensar insulina e outros remédios ou liberar a alimentação sem restrições.

"Quando há essa combinação entre apelo emocional, soluções milagrosas e uma suposta validação por autoridades médicas, temos grandes chances de ter aí uma desinformação em saúde", afirma Victor Terra, coordenador de Educação da Lupa.

WhatsApp lidera, mas dado tem limite

O WhatsApp apareceu em mais de 70% das checagens analisadas e é também o principal canal pelo qual o público sugere conteúdos à Lupa. Facebook e Instagram aparecem em 25,3% e 7% dos casos, respectivamente. Esses números não indicam que o WhatsApp concentre mais desinformação: uma mesma publicação circula em várias redes, e o levantamento não mede a exposição total do público.

Segundo Terra, os sistemas de recomendação das plataformas usam sinais como visualizações, comentários e compartilhamentos para distribuir conteúdos. "O problema é que esse tipo de análise não leva em conta o teor do conteúdo em si, se é verdadeiro, falso, se algo ali foi retirado de contexto", diz. Por isso, publicações que despertam medo ou indignação podem ganhar alcance.

Terra defende mecanismos de denúncia rápidos e acessíveis, "com instruções mais claras, botões mais visíveis e diligência das plataformas". O relatório recomenda ainda reduzir os incentivos econômicos à desinformação, principalmente quando conteúdos enganosos promovem a venda de produtos.

Perguntas frequentes

Quantas alegações de saúde a Lupa checou desde 2017?

Foram 764 alegações verificadas entre 2017 e junho de 2026, e 667 (87,3%) eram falsas.

Qual foi o tema mais checado nas alegações de saúde?

A Covid-19 esteve em 61% das checagens; tratamentos, curas e prevenção representaram 34%.

Qual doença foi mais explorada para vender produtos falsos?

O diabetes, com promessas de controlar ou reverter a doença e dispensar insulina.

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