Ibovespa cai 2,68% e acumula perda de 16,6% na semana; dólar fecha a R$ 5,34
Foi a terceira sessão seguida de perdas, depois do tombo de 13,88% de segunda; o Tesouro recomprou R$ 31,6 bi em dois dias e o BC injetou US$ 3,75 bi em swaps.
Por que afeta o RS: A alta do dólar e dos juros pode encarecer preços, crédito e investimentos no Rio Grande do Sul.
Redação Bairrista · Repórter de Economia · · 11 min de leitura
Atualizada 30/10, 05:52 · O material traz a Selic em 13,75% ao ano, nível que a matéria não informava, e que serve de referência para o Copom da semana seguinte.

O Ibovespa fechou a quarta (28) em queda de 2,68%, aos 171.006 pontos, a terceira sessão seguida de perdas. Na semana, a baixa acumulada chega a 16,6%. O dólar recuou 0,19% e terminou a R$ 5,34, em meio às dúvidas dos investidores sobre a política fiscal do governo reeleito.
A queda vem depois do tombo de segunda (26), quando o índice caiu 13,88%, aos 176.608 pontos, a maior baixa desde março de 2020. O dólar encerrou aquele dia a R$ 5,4027, alta de 8,21%, a maior desde 1999, depois de passar de R$ 5,60 na máxima. O Tesouro Nacional recomprou R$ 14,8 bilhões em títulos, entre prefixados e papéis indexados à inflação, e o Banco Central fez leilões de swap cambial que injetaram US$ 3,75 bilhões no mercado futuro. Somadas as operações de segunda e terça, o Tesouro recomprou R$ 31,6 bilhões em dois dias, segundo o Valor Econômico.

Para quem vive no Rio Grande do Sul, o efeito passa por câmbio e juros. Dólar mais alto pode encarecer produtos e insumos importados, e juros maiores tendem a encarecer financiamento e crédito para famílias e empresas. A política fiscal federal também pesa nos repasses de recursos ao estado e aos municípios.
Na segunda, o índice abriu com queda de mais de 10%, e a B3 interrompeu o pregão por 30 minutos. Ao longo do dia, a baixa chegou a passar de 17%.
Dois leilões cancelados, um mantido
O Tesouro cancelou os leilões de títulos prefixados e atrelados à inflação previstos para a terça (27) e a quinta (29). Saiu da agenda a oferta de NTN-B, ligada ao IPCA, de terça, e a de LTN e NTN-F, prefixados, de quinta.
O leilão de Letras Financeiras do Tesouro (LFT), papéis que acompanham a Selic, previsto para terça, foi mantido. Em comunicado, o Tesouro disse que seguirá monitorando o mercado e atuará para garantir o bom funcionamento da negociação de títulos públicos.
Como foi a recompra
O Tesouro lançou um edital extraordinário para recomprar até 5 milhões de unidades de NTN-F em cada um dos três vencimentos: 2031, 2033 e 2037. A operação foi restrita aos dealers, as instituições financeiras credenciadas, e a liquidação ficou para terça (27). As três operações com prefixados somaram R$ 7,067 bilhões.
O Tesouro fez ainda outra operação, com títulos indexados à inflação. Somadas as duas frentes, o total recomprado na segunda chegou a R$ 14,8 bilhões, segundo O Globo. Com as recompras de terça, o volume acumulado em dois dias subiu para R$ 31,6 bilhões, de acordo com o Valor Econômico. A recompra buscou conter a pressão no mercado de juros.
Em dias de juros em alta, os investidores podem exigir taxas maiores para financiar o governo, o que encarece a emissão de dívida. Cancelar as ofertas evita que o Tesouro contrate dívida prefixada ou indexada à inflação nessas condições.
BC injeta US$ 3,75 bilhões no mercado futuro
O Banco Central fez leilões de swap cambial, contratos que funcionam como venda de dólar no mercado futuro e ajudam a segurar a cotação. Ao todo, as operações colocaram US$ 3,75 bilhões no mercado. Depois das intervenções do BC e do Tesouro, as taxas de juros futuros recuaram em parte. Ainda assim, os juros de médio e longo prazo subiram mais de dois pontos percentuais.
Na terça (27), o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou que não vê motivo macroeconômico para esperar uma escalada do dólar.
O que derrubou a bolsa
Segundo agentes financeiros, o mercado vinha se posicionando para uma vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno. Os investidores viam uma mudança em Brasília como chance de melhora das contas públicas. A vitória de Lula, no domingo (25), contrariou essa aposta.
As taxas dos DIs (Depósitos Interfinanceiros) subiram mais de 300 pontos-base em um primeiro momento, e o mercado passou a precificar alta da Selic em novembro. Foi a primeira vez desde 2020, no início da pandemia, que a B3 acionou o circuit breaker.
Juros futuros passam de 15% nos contratos mais longos
Os contratos de DI para janeiro de 2027 chegaram a 14,288% ao longo do pregão de segunda. Os de janeiro de 2029 superaram 15,03%, e os de janeiro de 2031, 15,25%. Esses contratos indicam quanto o mercado espera de juros nos próximos anos, e servem de referência para o custo de financiamentos e da dívida pública. A alta reflete a preocupação dos investidores com a trajetória das contas públicas. A Selic hoje está em 13,75% ao ano, abaixo de todos esses patamares.
Na terça (27), o DI para janeiro de 2029 recuou e fechou a 14,76%, abaixo do pico de segunda, mas ainda em nível elevado.
Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, afirmou que o problema não é só o resultado eleitoral, mas a incerteza sobre a condução das contas públicas. Segundo ele, o rumo dependerá das primeiras decisões econômicas do governo reeleito.
Fábio Murad, consultor da Wiser Asset, disse que parte dos investidores havia comprado ações e vendido dólares antecipando outro resultado, e o desmonte dessas posições intensifica a reação.
Durigan promete projeto sobre a meta fiscal ainda nesta semana
Depois da turbulência no mercado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu na noite de segunda, no Palácio da Alvorada, com o ministro da Fazenda, Dario Durigan, e o do Planejamento, Bruno Moretti. O encontro tratou da reação dos mercados à reeleição, em um dia com intervenção do Tesouro e do Banco Central.
Na terça (27), Durigan afirmou que as medidas fiscais já estão prontas e citou a necessidade de sinalizar ao mercado. Disse que o governo pretende enviar ao Congresso ainda nesta semana um projeto para reforçar a busca pelo centro da meta fiscal. Hoje, os bloqueios orçamentários costumam mirar o limite inferior da banda de tolerância.
A proposta manteria a banda e daria mais segurança jurídica para bloqueios maiores quando necessários. A regra pode levar a contingenciamentos maiores e influencia a trajetória da dívida, os juros e a execução de políticas públicas em todo o país. A definição da política econômica e do comando da Fazenda está entre as incertezas que os investidores acompanham.
A Fazenda informou que monitora a volatilidade e poderá agir caso haja disfuncionalidades, ou seja, falhas no funcionamento das negociações. Segundo O Globo, Durigan afirmou que o governo pode usar leilões extraordinários do Tesouro e outras medidas para preservar o funcionamento do mercado.
Meta de 2027 prevê superávit de R$ 73,2 bilhões
A meta fiscal de 2027 prevê superávit primário de R$ 73,2 bilhões, o equivalente a 0,50% do PIB. O limite inferior da banda, piso considerado para contingenciamentos, é de R$ 36,6 bilhões. Esses são os números que embasam a conversa entre Lula, Durigan e Moretti sobre o cenário fiscal e o projeto que o governo quer enviar ao Congresso.
IFI soma R$ 40 bilhões extras em 2027 e vê ajuste de 3% do PIB
A Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão ligado ao Senado, afirmou nesta quinta (29) que compromissos anunciados pelo governo eleito agravam as contas públicas. Segundo a instituição, o reajuste do Bolsa Família, a perda de arrecadação com bets e as medidas para MEIs somam R$ 40 bilhões de desequilíbrio adicional no Orçamento de 2027. A IFI calcula que o déficit potencial pode chegar a 1% do PIB no ano e aponta a necessidade de um ajuste equivalente a cerca de 3% do PIB.
Outro levantamento da IFI, citado em coluna do JC Negócios publicada nesta quinta, estima em R$ 186 bilhões a pressão fiscal somada de 2026 e 2027. O cálculo usa dados oficiais e projeções de despesas do governo. Inclui R$ 36,2 bilhões em subsídios a combustíveis em 2026, além de aportes a fundos garantidores, reajustes do Bolsa Família e renúncias fiscais.
A coluna cita ainda uma estimativa de dívida pública de 82,9% do PIB, cerca de R$ 11,1 trilhões, em agosto. É esse tipo de conta que alimenta a cobrança dos investidores por ajuste fiscal, com efeito sobre juros, câmbio e crédito para famílias e empresas gaúchas.
No relatório de acompanhamento fiscal de outubro, também divulgado nesta quinta, a IFI avaliou que um plano econômico crível para os próximos quatro anos e a definição do ministro da Fazenda podem ajudar a estabilizar as expectativas. A instituição afirmou que não espera mudanças bruscas na condução econômica após a reeleição de Lula. Para a área fiscal, prevê a continuidade do ajuste gradual, com correções pontuais.
Dívida bruta fica em 82,9% do PIB e déficit do ano chega a R$ 94,3 bilhões
O Banco Central divulgou nesta quinta (29) que a dívida bruta do governo geral permaneceu em 82,9% do PIB em setembro, o mesmo nível de agosto e o maior desde 2021. No acumulado de janeiro a setembro, o setor público consolidado registrou déficit primário de R$ 94,3 bilhões, ante R$ 79,2 bilhões no mesmo período de 2025. Os juros nominais somaram R$ 970,5 bilhões nos nove meses, com a Selic em 13,75% ao ano.
A XP projeta que a dívida bruta chegue a 83,6% do PIB ao fim do ano, segundo O Globo. Economistas ouvidos pelo jornal apontam pressão sobre as contas e a necessidade de ajuste fiscal.
Dívida alta e déficit crescente pressionam os juros e o crédito, e reduzem a margem do poder público para financiar serviços, inclusive em estados e municípios como os do RS.
Terça (27): dólar fecha a R$ 5,35 e bolsa cai 0,51%
Na terça, o dólar abriu praticamente estável, perto de R$ 5,40, sem repetir o salto de segunda. Às 11h35, depois da reunião de Lula com Durigan e Moretti, a moeda era cotada a R$ 5,35, e o Ibovespa operava em queda de 0,8%.
No fechamento, o dólar caiu 0,97% e terminou a R$ 5,35, depois da alta de 8,21% da véspera. O Ibovespa chegou a subir mais de 1% ao longo do dia, mas fechou em queda de 0,51%. Foi uma correção parcial: a moeda seguia acima do patamar anterior à eleição, e os investidores continuavam cobrando sinais de ajuste fiscal e da equipe econômica do próximo mandato de Lula.
Quarta (28): bolsa cai 2,68% e perde 16,6% na semana
A calmaria da terça não se repetiu. O Ibovespa fechou a quarta aos 171.006 pontos, com queda de 2,68%, a terceira seguida. Pela manhã, às 11h45, o índice recuava 2,93%, aos 170.564 pontos. Os investidores atribuíram a cautela às incertezas sobre a política fiscal do governo reeleito e aguardavam a decisão de juros do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos.
O Fed manteve os juros, e a decisão pesou no movimento do câmbio, segundo o Valor. O dólar recuou 0,19% e fechou a R$ 5,3401, em leve baixa sobre os R$ 5,35 de terça, depois de oscilar durante o pregão. Os juros futuros de longo prazo subiram. A moeda segue bem acima do nível anterior à eleição.
O petróleo Brent, referência internacional, subia 1,73% e era negociado a US$ 115,85 por barril na manhã de quarta. Combustíveis e insumos mais caros podem pesar no custo de frete, de produção e de crédito para empresas e consumidores gaúchos.
A equipe econômica, por sua vez, prepara a proposta para buscar o centro da meta de superávit primário de 2027, de R$ 73,2 bilhões.
Quinta (29): dólar passa de R$ 5,40 e juros longos fecham em queda
O dólar abriu a quinta em alta de 0,37%, cotado a R$ 5,3599 perto das 9h, segundo o g1. No Valor, o mercado também aguardava o PIB dos Estados Unidos. Ao longo da sessão, a moeda superou os R$ 5,40, em meio à incerteza fiscal e sobre a futura equipe econômica.
Nos juros, o movimento foi inverso ao do câmbio no fim do dia. As taxas subiram durante boa parte da sessão e fecharam em leve queda depois da notícia de que Lula pretende conversar com o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, sobre um convite para comandar a Fazenda. A informação foi atribuída à CBN, e o convite não foi confirmado oficialmente.
O DI para janeiro de 2029 fechou a 14,745%, abaixo dos 14,824% do dia anterior. O de janeiro de 2028 caiu de 14,408% para 14,325%, e o de janeiro de 2031 recuou de 15,072% para 15,050%.
Durigan afirmou que o governo enviará ao Congresso o projeto que estabelece o compromisso de atingir o centro da meta fiscal em 2027. O ministro anunciou ainda que a equipe prepara uma proposta para regulamentar o Imposto Seletivo, tributo previsto na reforma tributária para bens prejudiciais à saúde e ao meio ambiente. O governo não detalhou prazo para essa segunda proposta.
O que vem a seguir
O governo promete enviar o projeto sobre a meta fiscal ao Congresso até o fim da semana, e os investidores aguardam também sinais sobre a futura equipe econômica, incluindo o nome para a Fazenda. Para a IFI, a definição do ministro e um plano crível para os próximos quatro anos estão entre os fatores que podem acalmar as expectativas, e o ajuste necessário para 2027 é de cerca de 3% do PIB. A regulamentação do Imposto Seletivo segue em preparação na Fazenda. O Tesouro e a Fazenda dizem que poderão adotar novas medidas, entre elas leilões extraordinários, para garantir o funcionamento das negociações. Na semana seguinte, o Copom se reúne para decidir a Selic, hoje em 13,75% ao ano, com os juros futuros já em patamar elevado.
Atualização: entrou o nível atual da Selic, de 13,75% ao ano, no trecho sobre os juros futuros, na seção da dívida bruta e na pauta do Copom.
Saber mais: fontes consultadas (39)
- Metrópoles
- ND Mais
- CNN Brasil
- Money Times
- Portal IN
- InfoMoney
- Reuters (Investing.com)
- CNN Brasil (mercado)
- g1
- ANSA Brasil
- CBN
- Cada Minuto
- DGABC
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- UOL Economia (Reuters)
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- g1 (Jornal Nacional)
- Valor Econômico
- Valor Econômico
- UOL Economia (Estadão Conteúdo)
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- Agência Brasil
- UOL Economia (Reuters)
- JC Negócios
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- O Globo
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