Cotribá não tem prazo para pagar credores e vê 90% do patrimônio de R$ 800 milhões travado
Liquidante Sérgio Strentzke projeta prejuízo de R$ 164 milhões em 2026 e não garante os empregos, em coletiva nesta quarta (21) em Ibirubá.
Redação Bairrista · Repórter de Economia · · 3 min de leitura

A Cotribá, de Ibirubá, no Planalto Médio, não tem cronograma para pagar credores nem produtores. A informação veio na primeira entrevista coletiva após a assembleia desta terça (20), que aprovou a liquidação extrajudicial com continuidade das atividades. A assessoria jurídica da cooperativa afirmou que cerca de 90% do patrimônio, avaliado em R$ 800 milhões, está comprometido por garantias bancárias e medidas judiciais.

Para o associado, o aviso é direto: a direção projeta prejuízo de R$ 164 milhões em 20262026. As perdas apuradas poderão afetar as obrigações dos cooperados. A cooperativa diz que tentará reduzir esse resultado até 31 de dezembro. O faturamento projetado para o período é de R$ 313 milhões.
Patrimônio grande, dinheiro curto
Os bens estão vinculados a bancos e fundos de investimento por alienações fiduciárias, hipotecas e penhoras judiciais. "Temos um patrimônio considerável, com uma avaliação aproximada de R$ 800 milhões. No entanto, 90% dele está comprometido", disse o representante jurídico da cooperativa.
Isso limita a venda de ativos para quitar dívidas. A prioridade, segundo a direção, é negociar com os credores para reduzir perdas e preservar os bens necessários para a cooperativa continuar funcionando.
A dívida declarada pela Cotribá no pedido de recuperação judicial, em abril, era de R$ 1,427 bilhão, com 20.614 credores. Desse total, R$ 1,317 bilhão eram créditos quirografários, sem garantia, R$ 99,7 milhões tinham garantia real e R$ 10,2 milhões eram trabalhistas. A cooperativa também informou bloqueios de R$ 8,74 milhões em contas por decisões judiciais.
Liquidante diz que só paga o que movimenta
O liquidante Sérgio Strentzke, que presidia a cooperativa desde 24 de setembro, afirmou que primeiro precisa avaliar a geração de receitas, reorganizar o fluxo financeiro e negociar com os credores. "Nós só podemos pagar aquilo que a gente consegue movimentar", declarou. Ele disse que não pode prever quando devolverá valores a produtores e outros credores.
Strentzke também não garantiu os empregos. Admitiu que ajustar as despesas ao faturamento poderá exigir mudanças na estrutura. A cooperativa não informou quantos postos de trabalho podem ser afetados.
As contas seguem sob bloqueio judicial. A direção aguarda o registro e a publicação da liquidação para buscar a proteção jurídica prevista na legislação. A cooperativa não informou quando isso deve ocorrer. Conforme o edital da assembleia, a liquidação pode suspender ações judiciais por até dois anos.
Fiscalização e críticas à gestão anterior
Strentzke disse que não atuará sozinho. "Não me deram um cheque em branco para eu fazer o que eu quiser", afirmou. O conselheiro fiscal Paulo Prediger deve acompanhar as atividades todos os dias. Márcio Ribamar Garmatz e Ingo Ahlert, também conselheiros fiscais, vão acompanhar decisões e procedimentos. A direção quer manter um canal com cerca de 80 integrantes do antigo conselho consultivo.
Entre os compromissos anunciados estão uma auditoria externa independente, assembleias semestrais de prestação de contas e um portal público com os atos da liquidação.
O liquidante afirmou que, em 2020, a consultoria Markestrat recomendou mudar a gestão da Cotribá e que a sugestão foi ignorada. "Essa sugestão de mudança de gestão foi literalmente rasgada pela antiga gestão", declarou. Ele anunciou que as investigações sobre possíveis irregularidades serão intensificadas, e que eventuais indícios irão aos órgãos públicos competentes. O relatório da consultoria e os resultados das apurações não foram apresentados na coletiva.
Antes de Strentzke, o ex-presidente Carlos Diehl e o ex-CEO Paulo Goulart haviam rejeitado a liquidação.
Fábrica de rações e modelo da Languiru
A direção quer retomar as negociações com parceiros comerciais, cobrar com mais rigor o que é devido à cooperativa e buscar alternativas para pôr a fábrica de rações para funcionar. Também se aproximou de profissionais que participaram da liquidação da Languiru, de Teutônia, cuja experiência servirá de referência para um plano próprio.
O objetivo declarado é recuperar a estabilidade e, no futuro, propor aos associados o fim do regime de liquidação, sem extinguir a cooperativa. A assessoria jurídica reconheceu que não há garantia de que isso aconteça.
A assembleia extraordinária desta terça (20) reuniu 375 associados e aprovou a proposta por unanimidade. A cooperativa tem 11.393 associados. A ata oficial será publicada com o registro das votações, e a próxima prestação de contas está prevista para a assembleia semestral.
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