Mensagens da PF indicam que Metrópoles enviava textos a Vorcaro; 11 de 14 foram alterados
Levantamento do UOL liga as conversas com a CEO Lilian Tahan a um contrato publicitário de R$ 20 milhões do Banco Master; ela nega que a publicidade tenha influenciado a cobertura.
Redação Bairrista · 15 de outubro de 2026 às 15:36 · 4 min de leitura

Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro indicam que a direção do Metrópoles mostrava reportagens sobre o Banco Master a ele antes de publicá-las. Segundo levantamento divulgado pelo UOL nesta quinta (15), ao menos 14 textos foram enviados previamente ao então banqueiro. Em 11 deles houve mudanças depois das observações dele.
A CEO do portal, Lilian Tahan, diz que consultar a fonte é uma prática de checagem e que a publicidade do Master não interferiu na cobertura. As conversas tratam de reportagens sobre o Master, o BRB e o Banco Central, ou seja, sobre uma crise financeira que ainda ocupa a imprensa e a Justiça.
Contrato de R$ 20 milhões veio meses depois do primeiro café
A aproximação começou em maio de 2024. O consultor Guilherme Barros levou Tahan a um café com Vorcaro. Um mês depois, segundo as mensagens, o Master pagou R$ 1 milhão ao site. Em julho, foram acertados mais R$ 900 mil para projetos de "educação financeira" da seguradora Kovr e do banco digital Will, ambos do grupo.
Em novembro de 2024, Tahan apresentou nova proposta. A diretora de marketing do Master, Ana Matos, informou a Vorcaro que o valor fechado era de R$ 20 milhões. Em 2025, o banco quitou o montante em parcelas de R$ 5 milhões, de acordo com as conversas.
Em abril de 2025, ao enviar a Vorcaro um perfil sobre ele, Tahan escreveu que não publicaria o texto sem os dois se falarem. No dia 2 daquele mês, o banqueiro reclamou de uma informação sobre suposta oferta de R$ 1 pelos ativos do Master. Tahan respondeu: "Tiramos".
Outros episódios relatados na reportagem:
- Abril de 2025: Tahan sugeriu uma reportagem comparando os balanços de Master e BRB. Vorcaro disse que poderia checar os dados antes, e o texto saiu no mesmo dia, depois de passar por ele.
- Maio de 2025: Vorcaro pediu que a Hapvida fosse retirada de texto sobre a venda de ativos do Master ao BTG Pactual. O pedido foi atendido.
- Agosto de 2025: o banqueiro opinou sobre a entrevista com o ex-presidente do BC Roberto Campos Neto. Também comentou o perfil de Renato Gomes, diretor do BC que analisava a compra do Master pelo BRB. Gomes se posicionou depois contra a operação. Segundo as mensagens, todos os pedidos foram atendidos.
- Agosto de 2025: Vorcaro pediu que Tahan reduzisse, naquela semana, a exposição de Ricardo Cappelli no portal. Cappelli é pré-candidato de oposição ao governo do Distrito Federal e crítico da compra do Master pelo BRB. A resposta foi "Deixa comigo".
- 17 de novembro de 2025: na data da prisão de Vorcaro, Tahan enviou reportagens sobre a venda do Master à Fictor antes da publicação. Depois das edições, avisou que o material estava no ar.
O levantamento também registra duas reportagens publicadas a pedido de Vorcaro.
Tahan diz que adota a mesma prática com políticos e juízes
Questionada pelo UOL, a CEO afirmou que costuma checar com a fonte se a matéria reflete o contexto passado ao veículo. Segundo ela, faz isso com personalidades empresariais, da política e do Judiciário.
Ela disse que o contrato de publicidade não tinha relação com a cobertura de interesse do banco. Citou reportagens do próprio portal sobre as empresas de Vorcaro, entre elas Banco Master, Ambipar, Fictor e Oncoclínicas.
Sobre o perfil de Renato Gomes, Tahan afirmou que ele virou personagem relevante ao se opor à compra do Master pelo BRB. Segundo ela, o tema sempre interessou a um veículo que cobre prioritariamente a capital federal. Sobre Cappelli, disse que o dono do portal, o ex-senador Luiz Estevão, sempre criticou a operação e forneceu ao político análises sobre problemas nos balanços do BRB.
Coaf já tinha apontado repasses suspeitos
Dias antes das mensagens de abril de 2025, o BRB, banco controlado pelo Governo do Distrito Federal, havia anunciado a compra de 58% do capital do Master. A operação precisava da aprovação do Banco Central.
O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master em 18 de novembro de 2025. Um relatório do Coaf, revelado antes, classificou como suspeitas operações em que o Metrópoles repassou valores recebidos do Master a outras empresas da família de Estevão. Estevão atribuiu os repasses ao patrocínio da transmissão da Série D do Brasileiro e à venda de naming rights da competição.
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